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37 nas Mentawaii, Life doesn’t get much better… |
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Pela segunda na vida vez tive a oportunidade
de passar o meu aniversário nas ilhas Mentawaii e o
presente desta vez foi pra lá de especial…Um
swell realmente sólido, o maior da temporada 2009,
com duração de 5 dias fez a cabeça da
galera e garantiu boas ondas para a primeira semana da trip
que iniciou pela área de Playgrounds.
Nosso roteiro era iniciar por Playgrounds e seguir rumo ao
sul das Mentawaii onde a ondulação é
sempre mais constante o que coincidiria com a baixada do swell…um
“timing” simplesmente perfeito!! Picos como Telescopes,
Macaronis, Greenbush, Lances Left e Bintangs garantiram o
surf de alta qualidade com condições perfeitas
para o surf durante toda a viagem.
Antes de sair de Bali ficava uma pontinha de tristeza por
abandonar uma previsão de um Uluwatu gigante (uma das
minhas ondas favoritas) além de querer ficar e surfar
um pouco mais com meu irmão que acabava de chegar em
Bali com um amigo…infelizmente eles não poderiam
me acompanhar na trip e além das marés não
serem as melhores para Ulus, como o próprio dono do
barco me disse, esse swell seria provavelmente o melhor dos
últimos tempos para Playgrounds…simplesmente
não dava pra deixar passar...Ulus gigante ficaria para
uma próxima assim como uma trip em família com
meu irmão...quem sabe com marés perfeitas e
de lua?!
Essa era a minha primeira trip trabalhando como “surf
guide” nas Mentawaii e gostaria de deixar registrado
meu agradecimento especial ao meu grande amigo Iban por toda
ajuda e suporte com informações vitais que ajudaram
muito para dar início a este novo projeto.
Na barca estavam 3 clientes meus que vieram especialmente
do Brasil para esta trip, Klelcio “Zé”,
Anderson “Mineiro” e Claudio “Chaves”
além de Laurie “Lozza” um bom amigo da
Nova Zelândia de mais de dez anos dos bons e velhos
tempos do faroeste de Kuta e outros 3 bons amigos Uruguaios
de outras temporadas de Indonésia Josepe, Oscar e Felipe.
Dois dias antes da data da saída se incorporou mais
um Brasileiro a trip, o baiano/carioca João, agora
meu grande camarada, chegava para engrossar o time e a barca
estava fechada…
Saímos de Kuta eu e o João logo cedo do dia
11 num vôo para Padang via Jakarta enquanto os outros
tripulanes da barca já nos esperavam em Padang ou estavam
chegando no mesmo dia vindo de outros lugares; Assim que anoiteceu
já estávamos todos a bordo saindo pelo canal
de Padang rumo as ilhas Mentawaii…a expectative era
grande e meu aniversário seria comemorado no primiero
dia de ondas da trip logo na entrada do tão esperado
swell, nada mal…mais uma vez os astros se alinhavam
no meu destino…
Começamos a trip em Playgrounds com ondas de 4 a 6
pés onde surfamos os picos de Beng-beng e 4 Bobs para
aquecer as turbinas; Devido ao tempo e previsão de
swell decidimos seguir viagem na mesma noite e no dia seguinte
pegamos Telescopes com 6 pés simplesmente perfeito
com uma leve brisa terral e muitos tubos largos e pesados.
Dali em diante quase todos os dias foram marcados por ondas
boas a excelentes em quase toda a trip…
Tivemos vários dias em Macaronis perfeito, duas vezes
em Hts, alguns dias em Lances Left e Bintangs memoráveis
e uma sessão muito divertida em Greenbush.
Sempre fazíamos uma reunião e decidíamos
onde surfar com base nas informações que eu
passava sobre nossas melhores opções levando
em consideração a direção dos
ventos e swell além das marés e previsão
das ondas.
Uma coisa que ficou clara para mim no decorrer da viagem foi
que algumas vezes um bom surfguide precisa ser um pouco autoritário
pois nem sempre é possível agradar a todos e
da mesma forma nem sempre a democracia das decisões
reflete o melhor caminho a ser tomado. Experiências
que vamos adquirindo passo a passo…
Esta viagem foi uma oportunidade única para todos se
conhecerem melhor, uma espécie de terapia em grupo…Uma
trip de barco de 11 dias é sempre um aprendizado sobre
comportamento (Relacionamento) humano devido ao espaço
reduzido, decisões que devem ser tomadas diariamente
sobre onde surfar, o que comer, etc…coisas que fazem
com que deixemos nosso ego e orgulho um pouco de lado e pensemos
mais no bem estar coletivo e satisfação de todos
ao invés somente de pensarmos em nós mesmos.
É engraçado notar como nós surfistas
somos totalmente dependents das ondas…quando as ondas
estavam perfeitas os ânimos estavam sempre elevados
e todos sorriam sem parar mas quando o mar baixava ou a condição
deteriorava por causa de ventos ou chuvas juntamente baixava
a moral coletiva…o importante era sempre, em todas as
ocasiões de convívio em grupo, tomar decisões
com democracia e bom senso…
A noite a diversão era garantida com campeonatos de
dominó em duplas…quem perdia tinha que usar prendedores
de roupa como brincos pendurados na orelha até ganhar
uma rodada para poder tirar e passar adiante…rimos muito,
a galera estava sempre muito animada e a vibe foi animal em
quase toda a trip!!
Além disso contávamos com uma tripulação
prestativa e animada e um cozinhiero de mão cheia,
ingredientes fundamentais para uma viagem de sucesso…
Do início ao meio da trip tivemos um pouco de chuva
e tempo instável com alguns momentos de ventos fortes…mas
no geral sempre encontrávamos ondas muito boas e todos
dias tinham muitos momentos simplesmente absurdos de tão
perfeitos.
No penúltimo dia finalmente tivemos nosso primeiro
pôr-do-sol alaranjado digno das Mentawaii e a noite
um céu absurdamente limpo e estrelado se abriu a nossa
frente marcando a travessia da volta entre as ilhas; Não
vacilei e aproveitei a ocasião para fazer uma das coisas
que mais gosto na vida e havia anos não fazia…viajar
de barco longe de tudo e todos com um céu estrelado
como pano de fundo sentindo a verdadeira sensação
da liberdade…coloquei um Pink Floyd a todo pau no ipod
e levei um colchão para o convés do barco onde
fiz toda a viagem de Lances Left a Playgrounds (cerca de 7
horas) deitado curtindo o visual; O capitão ao notar
o que eu fazia apagou todas as luzes do barco e viajei curtindo
aquele visual lissérgico vivendo intensamente o momento
de estar completando 37 anos da maneira mais especial que
conheço. Cheguei a “viajar” e me sentir
em outra dimensão quando visualizei o nosso barco,
um pontinho minúsculo cruzando o Oceano Índico
aquela hora da noite, como se estivesse vendo através
do Google Earth e aquilo me fez novamente ver o quão
insignifivcantes realmente somos frente ao universo e especialmente
como são insignificantes os nossos problemas que normalmente
temos a mania de superpotencializar por causa do nosso EGO…
Reflexões sobre a vida são sempre inevitáveis
e recompensadoras neste tipo de viagem;
As vezes é necessário refletir sobre a loucura
do ritmo frenético do mundo capitalista em que vivemos…somos
prisioneiros de tanta coisa…do sistema, dos negócios,
do celular, da internet, da mídia, do trânsito,
de relacionamentos, do nosso EGO, etc…
Nada como tirar 11 dias de folga, cortar toda e qualquer forma
de contato com o mundo exterior e viver o “aqui e agora”
em um lugar desolado onde o tempo parou, cercado de natureza
virgem, intocada e exuberante com apenas uma preocupação
na mente, as ondas!! Isto faz com que se possa visualizar
a vida, os problemas cotidianos e tudo mais sobre outro prisma;
e muitas vezes quando enxergamos nossa vida pelo lado de fora
certas coisas que antes pareciam turvas ficam claras como
a água…Me sinto abençoado por poder viver
este tipo de experiência que inspira a reflexão
e o auto-conhecimento e deveria ser algo praticamente obrigatório
a todo ser humano fazer pelo menos esporadicamente; Uma espécie
de exilo meditativo em meio a natureza por assim dizer…
É engraçado notar como os problemas cotidianos
simplesmente ficam em terra durante uma viagem dessas; muitos
problemas que parecem enormes se tornam insignificantes…uma
trip assim inevitavelmente nos leva a pensar e fazer uma reflexão
sobre o que realmente importa em nossas vidas…
Acabo esta matéria com um trecho de um livro do Amyr
Klink que me veio a cabeça durante a travessia entre
as ilhas na penúltima noite:
"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por
meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar
por si, com seus olhos e pés, para entender o que é
seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes
valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto.
Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob
o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares
que não conhece para quebrar essa arrogância
que nos faz ver o mundo como o imaginamos e não simplesmente
como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores
do que não vimos, quando deveríamos ser alunos
e simplesmente ir e ver.”
Uma das coisas mais importantes que temos em nossa vida não
custa nada mas as vezes esquecemos de dar o merecido valor
e usufruir ao máximo…nossa liberdade!!
FREEDOM!!!
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